﻿{"id":270,"date":"2010-05-27T17:26:39","date_gmt":"2010-05-27T20:26:39","guid":{"rendered":"http:\/\/vitorluiz.6te.net\/?p=270"},"modified":"2010-05-27T17:26:39","modified_gmt":"2010-05-27T20:26:39","slug":"crise-feridas-e-cicatrizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vitor.6te.net\/?p=270","title":{"rendered":"Crise, feridas e cicatrizes"},"content":{"rendered":"<div lang=\"es\">\n<div>\n25\/05\/2010 | Alfredo J. Gon\u00e7alves *<br \/>\nToda pessoa ou sociedade, em algum momento de sua trajet\u00f3ria, passa pelo que se pode denominar situa\u00e7\u00e3o-limite. Situa\u00e7\u00e3o em que as pr\u00f3prias for\u00e7as se esgotam. Parafraseando Simone de Beauvoir, \u00e9 como se as estrelas se apagassem no c\u00e9u, os marcos desaparecessem da estrada e o ch\u00e3o sumisse debaixo dos p\u00e9s. Em meio ao desespero, temos de apelar para algo ou Algu\u00e9m superior a n\u00f3s mesmos. Produz-se uma sensa\u00e7\u00e3o que, de ponto de vista religioso, poderia ser assim descrita: &#8220;At\u00e9 aqui eu caminhei com minhas pernas. Daqui para frente, n\u00e3o posso mais, minhas for\u00e7as n\u00e3o permitem. Estou em tuas m\u00e3os, Senhor!&#8221;.<br \/>\nS\u00e3o diversas as situa\u00e7\u00f5es-limite. Podem ser de ordem pessoal, familiar ou comunit\u00e1ria, mas tamb\u00e9m podem ser de natureza social, econ\u00f4mica, pol\u00edtica e cultural. Em termos hist\u00f3ricos, as grandes transi\u00e7\u00f5es paradigm\u00e1ticas provocam crises generalizadas, atingindo entidades, organiza\u00e7\u00f5es, movimentos, regras gerais e at\u00e9 os poderes estabelecidos. Nessas diversas inst\u00e2ncias, podem questionar leis e costumes, al\u00e9m de causar inseguran\u00e7a, instabilidade e incerteza. As verdades s\u00e3o substitu\u00eddas pelas d\u00favidas, as respostas d\u00e3o lugar a novas perguntas. Talvez a crise se instale quando as interroga\u00e7\u00f5es existenciais sejam maiores que nossa capacidade de responder.<br \/>\nNo \u00e2mbito pessoal ou familiar, tais situa\u00e7\u00f5es abrem feridas profundas no cora\u00e7\u00e3o e na alma. Diferentemente das feridas do corpo, essas costumam ter um processo lento e laborioso de cicatriza\u00e7\u00e3o. Pior ainda, mesmo ap\u00f3s os momentos mais graves, permanecem no substrato da mem\u00f3ria como \u00e1gua represada. Ao menor sinal de que podem repetir-se as circunst\u00e2ncias que provocaram a debilidade e a ferida, a cicatriz pode romper-se como uma represa, voltando a sangrar dolorosamente.<br \/>\nA mem\u00f3ria da ferida, da cicatriz e da possibilidade de esta reabrir-se faz a pessoa, e at\u00e9 mesmo a sociedade, conviver com um medo vago e indefinido, uma esp\u00e9cie de temor constante. Quando ela chega novamente \u00e0 fronteira de suas energias, esse temor, ainda que vago, torna-se bem presente e amea\u00e7ador. \u00c9 como se um fantasma desconhecido rondasse a porta de casa, perturbando os moradores que procuram abrigar-se no recanto mais \u00edntimo.<br \/>\nNuma perspectiva hist\u00f3rica, esse fantasma povoou as mentes e os bastidores da d\u00e9cada de 1930-40, por exemplo, logo ap\u00f3s a crise de 1929. A instabilidade gerou os regimes totalit\u00e1rios que se impuseram em v\u00e1rios pa\u00edses, especialmente na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, na It\u00e1lia e na Alemanha. Nazismo, fascismo e holocausto constituem feridas mal cicatrizadas e que sangram com certa freq\u00fc\u00eancia atrav\u00e9s da intoler\u00e2ncia recorrente de grupos organizados. Tamb\u00e9m nos anos 50 e 60, apesar da euforia do crescimento econ\u00f4mico e do &#8220;Estado de bem-estar social&#8221; keynesiano , o fantasma da guerra fria e da amea\u00e7a nuclear fez o Para Jo\u00e3o XXIII publicar a enc\u00edclica Pacem in Terris.<br \/>\nFrente a tais fantasmas, o medo toma conta de todo o organismo, pessoal ou social. Percorre as veias geladas de indiv\u00edduos e institui\u00e7\u00f5es, penetra nas entranhas mais ocultas do ser. Como \u00e1gua em f\u00faria, invade o cora\u00e7\u00e3o, a cabe\u00e7a e o esp\u00edrito de todos. Inunda o terreno vivo das emo\u00e7\u00f5es e dos sentimentos, deixando a pessoa ou a sociedade sem controle sobre os pr\u00f3prios pensamentos, a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es. Das duas uma: ou nos projeta a um ritmo alucinado de atividades, tentando esconder sobre elas sua face desfigurada; ou paralisa completamente nossos membros e movimentos, deixando-nos doentiamente ap\u00e1ticos.<br \/>\n\u00c9 neste sentido que autoritarismo e submiss\u00e3o s\u00e3o duas faces da mesma moeda; o grito de viol\u00eancia convive com o mutismo na inibi\u00e7\u00e3o. O d\u00e9spota diante dos mais fracos costuma ser subserviente aos p\u00e9s dos poderosos. Dentro do oprimido, n\u00e3o raro, mora um opressor em potencial. Impl\u00edcita ou explicitamente, o tirano conta muitas vezes com a cumplicidade dos subjugados.<br \/>\nReproduz-se a ambig\u00fcidade de toda crise. Esta ou nos leva ao ber\u00e7o, ao colo da m\u00e3e, onde podemos chorar as m\u00e1goas, \u00e0s vezes afogando-nos nelas; ou nos leva \u00e0 fronteira, onde rompemos todos os limites e rasgamos novos horizontes. Talvez seja mais correto dizer que toda crise, num primeiro momento tende a refugiar-nos no aconchego do ber\u00e7o, mas, passado algum tempo, ou ela se perpetua e nos asfixia definitivamente, ou nos revigora para novos desafios.<br \/>\nNuma palavra, a situa\u00e7\u00e3o-limite, com sua respectiva crise, costuma conduzir os d\u00e9beis e imaturos a um passado saudosista, onde eles podem encontrar um ninho para fugir a novas tempestades. Por outro lado, costuma levar os adultos amadurecidos nas tormentas da vida a renovar a pr\u00f3pria coragem, a enfrentar o sert\u00e3o desconhecido do futuro. Nele s\u00e3o chamados a abrir veredas imprevistas. Em s\u00edntese, a crise tende a enfraquecer os j\u00e1 debilitados, ao mesmo tempo que pode fortalecer os mais robustos. A exemplo dos vasos, \u00e9 na queda que se revela a resist\u00eancia do ser humano.<br \/>\nNo cen\u00e1rio da crise e da nova geopol\u00edtica mundial, que surpresas nos escondem os anos vindouros? Que estrat\u00e9gias desenvolver\u00e3o os defensores do sistema capitalista, camale\u00e3o sempre disposto a mudar de cor conforme as circunst\u00e2ncias? No tabuleiro do xadrez social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico, como se comportar\u00e3o os pa\u00edses centrais, os pa\u00edses emergentes e os pa\u00edses subdesenvolvidos? E n\u00f3s, pessoalmente, que tivemos a carne e o esp\u00edrito fundamente rasgados pela crise, o que faremos para superar esta situa\u00e7\u00e3o-limite? Nesta encruzilhada, que caminho tomar?<br \/>\nS\u00e3o perguntas para as quais n\u00e3o h\u00e1 respostas imediatas. Deixo-as a\u00ed, como p\u00e1ssaros errantes, \u00e0 espera de um galho sobre o qual pousar. Talvez hoje n\u00e3o passemos de p\u00e1ssaros errantes, s\u00f4fregos atr\u00e1s de uma resposta que nos livre do terreno minado das perguntas. Da\u00ed o risco de se atirar avidamente sobre o primeiro galho que estiver \u00e0 m\u00e3o. Ele pode estar podre ou ser muito fr\u00e1gil. Ainda que no escuro, vale a pena continuar o v\u00f4o em busca de uma \u00e1rvore mais segura. Ou lan\u00e7ar a semente ao solo, cultiv\u00e1-la com carinho, \u00e0 espera que a planta crie ra\u00edzes s\u00f3lidas e depois se lance ao c\u00e9u da liberdade.<br \/>\n* Alfredo J. Gon\u00e7alves, CS, assessor das Pastorais Sociais.<br \/>\nFonte:\u00a0<a rel=\"nofollow noopener noreferrer\" href=\"http:\/\/www.revistamissoes.org.br\/artigos\/ler\/id\/999\" target=\"_blank\">http:\/\/www.revistamissoes.org.br\/artigos\/ler\/id\/999<\/a>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>25\/05\/2010 | Alfredo J. Gon\u00e7alves * Toda pessoa ou sociedade, em algum momento de sua trajet\u00f3ria, passa pelo que se pode denominar situa\u00e7\u00e3o-limite. Situa\u00e7\u00e3o em que as pr\u00f3prias for\u00e7as se esgotam. 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